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Conjuração - Capitulo 01




O sol estava se pondo no horizonte quando Diana adentrou o pequeno cemitério de Laguna. Cinco dias haviam se passado desde que soubera dos verdadeiros planos de sua mãe e dia após dia a jovem lutara com o pesado fardo trazido pelas terríveis revelações.
Caminhava calmamente entre os túmulos e mantinha uma expressão sem emoção alguma. Os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo balançavam lentamente se contrastando com a camiseta preta e a calça jeans justa. Uma sensação gélida percorria seu corpo ao lembrar-se da libertação dos demônios que desencadeou todos os acontecimentos que marcavam aquele  campo santo. Fora ali mesmo que vira pela primeira vez a ceifadora Agatha e também o espírito de sua avó. Era difícil pensar em Agatha sem que o ódio dominasse seus pensamentos, afinal ela havia confiado na ceifadora, enquanto esta apenas usava a jovem para que despertasse os poderes Khamins e destruísse os demônios libertos para dar início à quebra do pacto. Uma pequena lágrima correu pela face da jovem, mas ela rapidamente a secou, encarando o túmulo de sua avó Sophia.
— Queria tanto que você estivesse aqui – ela sussurrou, desejando que sua súplica fosse ouvida como oração por sua vó. — As coisas poderiam ser mais fáceis se eu pudesse ouvir seus conselhos mais uma vez.
Diana sentiu o ar à sua volta ficar mais frio. À noite se aproximava e, mesmo que os demônios já não caminhassem por aquelas terras, não se sentia segura para andar após o entardecer. Balançou a cabeça a fim de afastar os maus pensamentos e virou-se.
O que estava pensando ao vir até ali? O que buscava afinal?
A jovem soltou os cabelos e inspirou profundamente o ar, lembrando-se do dia em que sua avó aparecera para ela, depois da derrota dos malditos. Em poucas palavras, ela só conseguiu lhe dizer que sua mãe estava por trás da libertação e logo em seguida desapareceu. Diante do choque das terríveis revelações a jovem perdeu a noção de tudo à sua volta, deixando que seu mundo desaparecesse, perdendo-se na escuridão e acordando apenas algumas horas mais tarde na casa do policial Tonhão.
Em seu íntimo, Diana sentia que os problemas não haviam chegado ao fim. Podia sentir que algo a espreitava na escuridão e a todo o momento se perguntava quando sua mãe se revelaria e colocaria seus planos em prática.
— Diana... – um sussurrou alcançou os ouvidos da jovem. Diana girou em torno de si mesma procurando a origem do chamado, mas aquela voz... – Diana... – a voz tornou a chamar.
— Quem está aí? – gritou ela.
Um longo silêncio preencheu o ar. Diana encarou o túmulo da avó. Seria possível?
— Ainda falando com os mortos, bruxa Khamins?
Ela virou-se. O capuz negro cobria-lhe a face, mas a jovem facilmente reconheceu a voz de Agatha, parada a poucos metros.
— Como ousa aparecer aqui? – vociferou, fuzilando-a com um olhar cheio de ódio.
— Acalme-se, gracinha – Agatha sorriu, retirando o capuz e exibindo um estranho brilho avermelhado nos olhos. — Estou aqui porque você precisa de mim.
— Eu não preciso de você! – Diana irrompeu num grito. Agatha sentiu uma energia lhe envolver e foi jogada para trás. — Eu deveria matá-la agora mesmo – Diana caminhou até onde a ceifadora estava. O ódio consumia sua mente e ela podia sentir a energia Khamins percorrer todo o seu corpo.
No mesmo instante, a ceifadora não estava mais lá. Ela surgiu ao lado de Diana com a imensa foice prateada apontada para a jovem bruxa.
— As coisas vão funcionar dessa forma, Diana – Agatha exibiu um semblante sério e Diana percebeu uma cicatriz que ia da altura do olho até o queixo no lado esquerdo do seu rosto. — Estou aqui para propor-lhe um acordo.
Diana respirou fundo.
— Um acordo? Comigo? – Diana não escondeu o tom surpreso. — Eu não preciso de nada que venha de você – rosnou.
— Você não poderia estar mais enganada – Agatha se aproximou, fazendo a foice desaparecer. — Seu maior desejo no momento é descobrir o que sua mãe planeja, não é? Eu posso lhe ajudar com isso.
— E por que você faria isso?
— Eu preciso de amigos, Diana. E não me entenda mal, mas estes são dias sombrios e não tem sido legal caminhar sozinha por aí – Agatha acariciou levemente a cicatriz em sua face. — Digamos que a minha cabeça foi posta a prêmio e a culpada, é claro, é a sua mãe. Então podemos dizer que é vantagem para mim que ela seja impedida o quanto antes, concorda?
Diana refletiu por um instante.
— E o que ela planeja? – Diana manteve o tom amargo.
— Qual a garantia de que você não me destruirá assim que eu lhe contar o que sei? – Agatha fez uma pausa, observando os túmulos a sua volta. — Tudo ao seu tempo, Diana.
— Eu não confio em você.
— E quem disse que eu confio em você? – tornou a ceifadora. — Só acho conveniente no momento darmos as mãos e atravessarmos a rua juntas, ok? – um leve sorriso brotou na face de Agatha. — É nosso objetivo comum que sua mãe não consiga o que quer e, acredite, ela virá atrás de você.
— Então... Qual seria o nosso acordo?
— Boa garota – Agatha fez uma pequena reverência. — As coisas vão ficar feias por aqui. Acho bom ter as pessoas certas por perto. Então tome cuidado. Você tem tudo o que ela precisa. É uma questão de tempo até que ela venha buscar.
— E como você sabe tudo isso?
— Lembre-se, bruxa Khamins, tudo ao seu tempo – Agatha sorriu, dando as costas a Diana.
— Não tente bancar a esperta comigo – Diana soltou num murmúrio sério.
— Eu não vou – Agatha sussurrou em meio ao sorriso irônico, desaparecendo logo em seguida.
Diana respirou fundo tentando compreender o que acabara de acontecer. Ela e Agatha estavam novamente lutando do mesmo lado?
Era certo que compartilhavam objetivos comuns no momento, mas seria aquela a melhor saída? Lembrou-se de Tonhão e o padre Theodoro. Estariam de acordo com a nova aliança?
Os pensamentos de Diana enchiam-se de perguntas, mas naquele momento nenhuma delas poderia ser respondida.  A jovem decidiu que o melhor era retornar para a casa do policial e contar-lhe o que acontecera.
E assim ela o fez.
***

A quase vinte quilômetros do centro de Laguna, o velho casebre abandonado perdia-se em meio à plantação e às ervas daninhas que insistiam em nascer ali. A lua no ponto mais alto do céu anunciava que a noite já ia alta e a fraca luz vinda do interior do casebre indicava a presença de alguém naquele lugar inabitável. Luzia, a bruxa Khamins, caminhava de um lado para o outro arrastando pelo chão empoeirado a longa túnica negra que cobria o seu corpo.  À sua frente, sete velas negras queimavam num pequeno altar iluminando o pentagrama desenhado com sangue de cordeiro. Ela murmurou algo ininteligível e voltou-se para o canto mais escuro do salão.
— Calisto foi morta por aquele padre insolente – vociferou ela.
— E logo estarão em nosso encalço – uma voz firme vinda da escuridão ganhou volume.
— Como ousa?
O sujeito escondido na escuridão caminhou em direção a Luzia, revelando as longas assas brancas e peito nu de pele morena.  Micael sorriu, exibindo um semblante tranquilo.
— É uma questão de tempo até nos encontrarem – o anjo caminhou em volta da bruxa e continuou: — Parece que o seu plano não é tão infalível como você pensou, não é mesmo? Tudo foi realizado exatamente como você mandou, porém... Você estava certa? – o anjo a desafiou.
— Cale-se! – Luzia gritou e no mesmo instante Micael sentiu como se o ar a sua volta deixasse de existir. Ele levou as mãos à garganta tentando se libertar do sufocamento, mas em poucos segundos tudo começou a perder o foco e o anjo caiu de joelhos.
Luzia gargalhou e estalou os dedos. O ar pareceu voltar ao corpo do anjo e ele encarou a bruxa num olhar de reprovação.
— Não se esqueça, por nenhum segundo, quem manda aqui, anjo maldito – os olhos de Luzia brilharam num tom arroxeado. — O plano está seguindo exatamente como eu quero – a bruxa deu as costas ao anjo, voltando sua atenção ao pequeno altar. — Logo ele estará aqui, Micael, e todos nós iremos ter o que desejamos.
Micael caminhou até o pequeno altar e colocou uma das mãos no ombro de Luzia. O anjo podia sentir todo o poder que corria no corpo daquela humana e a temia, pois sabia que estava disposta a tudo para conquistar o que tanto almejava. Era uma questão de tempo até que o grande plano entrasse em ação, mas até lá muitas coisas ainda teriam que ser resolvidas.
— E quanto à ceifadora Agatha? O que pretende fazer?
— Não se preocupe, Micael – a bruxa respondeu acariciando a mão do anjo. — Tudo será resolvido em seu devido tempo.
— E Diana? – questionou o anjo.
— Pretendo lidar com ela na hora certa – tornou ela num tom amargo. — Diana é a última parte deste plano, mas garanto a você, Micael, que ela cairá assim como todos aqueles que ousarem me desafiar.
As velas do altar se apagaram, mergulhando o salão mais uma vez na densa escuridão.

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